Últimas Vezes - conto
Sâmia tinha olhos muito grandes e o encurralou na saída, no último dia de aula, entregando-lhe o velho telefone que abria e fechava e pedindo que anotasse ali seu número. Sentiu-se nervoso e, sem saber por quê, digitou uma sequência falsa. Ela o abraçou apertado e saiu sorrindo. Tinham então onze anos.
Viu Geraldo Nunes pela última vez numa calçada, com a velha mochila vermelha nas costas, enquanto passava por ele de ônibus, uns meses depois de tê-lo visto na escola, quando acreditou que aquela, sim, era a última vez que veria o amigo. Geraldo Nunes também o viu e ergueu o braço direito.
Tobias ele encontrou na rua, e é verdade que já não eram bons amigos há anos, mas conversaram ali, fumando um cigarro à sombra de uma árvore, e o amigo agora era modelo fotográfico e só comia peito de frango e alface, caminhava oleoso na frente de mulheres e fotógrafos, e sua irmã, Lavínia, fora expulsa de casa quando engravidou pela segunda vez de um criminoso do bairro. Conversou com o antigo amigo, com quem tantas vezes andara de bicicleta ali mesmo naquela rua, e brigara de tirar sangue, e certa vez o perseguira até que subisse numa árvore e ficasse ali até anoitecer, quando o avô dele apareceu para resgatá-lo; e então despediram-se para sempre.
Em algum momento, anos mais tarde, esqueceria a última vez que viu Alfredo, e esse fato o assaltaria enquanto rememorava as noites em que saíam do curso preparatório e ele, o amigo, e o pai de Alfredo caminhavam pelas ruas escuras falando sobre as guerras, as ditaduras, os comunistas e os fascistas e as pirâmides debaixo do mar, os filmes de máfia, os jogos de videogame e tantas outras coisas. Lembrava que o pai de Alfredo também se chamava Alfredo, que era um homem inteligente, de óculos quadrados e cabelo crespo, que andava com as mãos nas costas e que, Jesus Cristo, ficara sabendo, de alguma forma, uns anos depois, sobre seu falecimento. Alfredo filho ainda estava por aí, talvez em São Paulo, havia dito algo sobre isso, mas não lembrava por nada a última vez em que o vira.
Marina tinha as olheiras de sempre, o cabelo curto, a calça rasgada nos joelhos e as grandes botas, e estava sentada numa daquelas mesas amarelas e, ele acreditava, Osvaldo também estava naquele dia. Tomaram muitas garrafas da cerveja mais barata, a única que era vendida ali, e conversaram sobre as provas da faculdade, o relacionamento de Osvaldo com a mãe, a namorada de Marina, que logo não seria mais, e também sobre os novos trabalhos como professores. Marina tinha então uma bela moto preta, cheia de partes cromadas, que nunca chegaria a ser uma velha moto, assim como Marina não chegaria a ser uma velha senhora, porque, oito meses depois, seriam atingidas por um carro em um cruzamento. Ouviu dizer que a perna já era, que foi tudo muito rápido e que ela nem poderia ter sentido dor.
Osvaldo, pelo menos, ainda o convidaria para um aniversário. Usava uma camisa floral de botão, bermudas largas, meias altas e coloridas, e havia feito uma nova tatuagem, e o desafiaria a cantar alguma coisa de pop-rock no karaokê, e ele mesmo, junto com o outro amigo, Igor, passaria muito tempo na frente daquele bar, perto da televisão e das caixas de som, berrando contra o microfone numa afinação que gradualmente se perdeu conforme a noite avançava. Quando se despediu do amigo, achou que não o veria mais, os caminhos se bifurcavam ali: empregos, divergências políticas, mudanças de horário da faculdade, e, no entanto, outra vez se encontraram, meses depois, numa manhã qualquer, quando ele fora entregar um trabalho atrasado a um professor que só o aceitaria pessoalmente, e Osvaldo não poderia perder o minicurso sobre György Lukács. Decidiram que precisavam marcar e tomar uma cerveja, e que isso ocorreria em breve. A faculdade foi fechada dias depois, um vírus chegava do outro lado do mundo, aulas canceladas. Ele foi para o interior; Osvaldo continuou na cidade. Sairia de casa normalmente, iria a festas, encontraria as namoradas; a doença não fez e não lhe faria mal nenhum. Perderia a vida num assalto como qualquer outro. Levantaria as duas mãos, rendendo-se, apelaria para que todos ficassem calmos e tomaria um tiro no peito.
A amiga Letícia ele viu pela última vez no aniversário de vinte e cinco anos. Lembrava da piscina à noite, da luz refletida da água nas paredes, dos pés dela balançando na água. Ela não quis mergulhar.




Muito bom e triste
Você insiste em se superar, parabéns.